Comorbilidades e riscos associados à PHDA

A Perturbação de Hiperactividade e Défice de Atenção (PHDA) no adulto é uma doença neuropsiquiátrica sobre a qual paira a controvérsia. É, por muitos (médicos, inclusivamente), considerada irreal. A confusão está instalada entre os protagonistas comunidade científica, profissionais de saúde, políticos e sociedade civil. Tudo isto agudiza as dificuldades de quem quer e poderia ajudar e limita a qualidade de prognósticos e tratamento dos doentes agravando problemas enormes e recorrentes no quotidiano de portadores, familiares e amigos. Fica, inclusivamente,  mais caro ao estado não ajudar e tratar mas, ainda não terá percebido.

Salvaguardo que na infância/adolescência a PHDA também não é um assunto tranquilo. Deixo o tema para outra altura. E aí é pior, fora as razões evidentes, de serem as crianças e jovens as vítimas, pela importância da comunidade educativa. Se nem todos os médicos estão preparados nesta área, os professores muito menos. É polémico mas há dados sobre isso. É, evidentemente, verdade.

Pessoas que sofrem de PHDA são muitas vezes estereotipadas como preguiçosas, más, agressivas, inconscientes, superficiais, detentoras de problemas comportamentais e/ou necessidades especiais e geralmente não lhes é reconhecido o sofrimento inerente à PHDA ou sequer atribuída a ajuda necessária.

Em termos de diagnóstico, a PHDA pode também ser negligenciado uma vez que é uma doença altamente sintomática. Os menos familiarizados com a forma como ocorre e se manifesta, tal como as possíveis e típicas  comorbilidades associadas,  podem confundi-la com outros problemas, também da área da  saúde mental, como os transtornos do humor ou de personalidade. Para o senso comum, é muitas vezes fácil e motivo de risota referir a má educação, o mau feitio, a falta de uns tabefes.
As referencias, na literatura psiquiátrica, à condição PHDA no adulto, remontam à década de 70, do século passado. Não é, portanto,  assim tão nova. Na criança, a literatura especializada encontra-se em maior número e em tempos bem anteriores.

Na actualidade, em Portugal, destaca-se o trabalho sério, concreto, no terreno e investigação de várias pessoas. Passo a transcrever, na íntegra, um artigo recente do Prof. Doutor Joaquim Cerejeira (*).

HIPERATIVIDADE NA VIDA ADULTA PODE EXPLICAR COMPORTAMENTOS “VICIANTES”

“A Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA) é uma doença neuropsiquiátrica crónica que se carateriza pelo excesso de atividade motora, impulsividade e/ou desatenção, em maior frequência e gravidade do que habitual, perturbando negativamente a capacidade para estudar, trabalhar ou ter relacionamentos familiares e sociais. Estima-se que afete entre 5 a 7 por cento das crianças em idade escolar e cerca de 4 por cento dos adultos.

Usualmente a doença é identificada e tratada na infância. Contudo existem casos em que a doença persiste na idade adulta e casos em que o diagnóstico só surge nessa altura. O diagnóstico precoce ou reconhecimento da doença na vida adulta é fundamental para evitar consequências mais graves.

As pessoas com PHDA habitualmente demonstram, na vida adulta, uma atividade mental incessante, sensação de inquietação (por exemplo têm as mãos e pés inquietos quando estão sentados), dificuldade em manter a atenção na leitura ou na televisão, fraca concentração e incapacidade para se envolver em atividades calmas ou sedentárias.

Os adultos hiperativos são irrequietos, falam excessivamente, sentem-se oprimidos, têm baixa tolerância à frustração, rápidas variações de humor, desorganização (de tempo, dinheiro, no lar, no trabalho) e procuram sensações fortes e de gratificação imediata, o que pode resultar em comportamentos “viciantes”, como abuso de drogas, álcool, jogos e internet.

De acordo com um estudo realizado em Portugal, em 2013, cerca de 75 por cento dos adultos com PHDA apresenta pelo menos uma outra perturbação psiquiátrica como depressão, ansiedade, dificuldades específicas de aprendizagem, abuso/dependência de substâncias ou perturbações do sono.

O diagnóstico, tratamento e acompanhamento adequado pode ajudar os adultos a gerir a PHDA, reduzindo o impacto negativo nas suas vidas. Infelizmente, em Portugal, a resposta do Sistema Nacional de Saúde para os adultos com PHDA é ainda muito escassa, quer pelo reconhecimento relativamente recente desta doença, quer pela própria negação da mesma por muitos psiquiatras de adultos.

Esse tema estará em debate no 7º Simpósio PHDA que irá decorrer em Coimbra, entre os dias 3 e 5 de maio. No dia 4 de maio estará em Portugal a médica Sandra Kooij que irá abordar, na iniciativa, a avaliação do adulto com PHDA.”

(*) Médico psiquiatra no Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC), EPE; professor de Psiquiatria (Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra), investigador e presidente da Associação Cérebro & Mente.
ARTIGO ONLINE [http://www.correiodabeiraserra.com/hiperatividade-na-vida-adulta-pode-explicar-comportamentos-viciantes-autor-joaquim-cerejeira/], 17 DE MAIO DE 2017.

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